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MISTÉRIOS E MAGIAS DO TIBETE - Chiang Sing - 1978 (*)

TRÊS

O Lama de Latchen

Eram quatro horas da tarde quando chegamos ao Mosteiro da Sagrada Luz de Buda, onde vive o Lama de Latchen com seus discípulos. Situado na encosta de um monte ele domina as casinhas da aldeia. Sua arquitetura lembra muito o "Chorten Nyima" ou Santuário do Sol que há em Gangtok, mas que não tivemos oportunidade de visitar.

O andar térreo do mosteiro só tinha duas grandes janelas, mas haviam três lindas portas de cedro esculpidas de Budas, acima das quais estava fixado o velho emblema budista: uma cruz suástica pintada em branco. O Lama de Latchen recebeu-nos pouco depois da nossa chegada, num grande salão do primeiro andar.

Ao longo da parede em que se abriam as janelas, havia um pequeno palanque alto, coberto de almofadões bordados e tapetes de lã tecida com fios laranja, azul e rosado formando desenhos de flores e borboletas.

Nesse palanque ou tablado haviam mesas estreitas de ébano e marfim. Numa outra parede vimos várias prateleiras com objetos sagrados. Pinturas em seda representando deidades lamaístas enfeitavam todo o ambiente.

Sentado numa "gomti" ou cadeira de meditação, o Lama de Latchen nos recebeu cordialmente. Ofereci-lhe uma echarpe de seda branca e em troca recebi outra igual, como manda o protocolo tibetano. Timidamente murmurei um agradecimento em tibetano:

- Todechi!

Era a primeira vez que tentava falar tibetano. Meus esforços pareciam divertir o Grande Lama.

Sua expressão bondosa pareceu-me muito familiar. Tinha um sorriso manso, de quem encontrou a Paz Profunda. Seu rosto magro e anguloso, era cor de bronze polido. Seu corpo era fino, nariz grande e boca firme. Os olhos pequenos e vivos; em volta deles a pele se contraía em pequenas rugas. Os cabelos grisalhos eram reunidos numa trança que lhe caía pelas costas, à maneira chinesa. Na cabeça um chapéu de seda amarelo, pontudo como a Mitra do Papa, tinha pequenas abas debruadas de peles. Olhei bem para ele e recordei as palavras do abade do mosteiro de Kargyompa:

"- Meu Mestre, o Lama de Latchen, vive ainda, apesar dos seus quatrocentos anos de idade...".

Será realmente possível que alguém viva quatrocentos anos?

E poderia um velho desta idade matusalênica ter a aparência de um homem de sessenta?

Não sei, tudo me parece muito confuso...

Observo o Lama, silenciosamente, enquanto Kazi e Vessantára conversam com ele. Sua expressão é modesta e tranquila e apesar de não usar os singelos hábitos monásticos, irradia doçura e humildade. Pendia-lhe do peito um longo rosário de brilhantes azuis mesclado com contas de jade verde musgo.

- Espero que sejam meus hóspedes por algum tempo - disse o Lama em inglês, com um ligeiro sotaque. Devem considerar como se estivessem em suas casas. As cerimônias e formalidades são próprias apenas do mundo profano. Deixo-os ao cargo do meu discípulo Kazi, que já conhece o mosteiro.

E assim dizendo o Lama afastou-se.

- Como? Também estudou aqui? - perguntamos surpresos. E Kazi respondeu modestamente:

- Sim... na minha infância ... quando eu tinha oito anos, vim para este mosteiro, aos cuidados de um Lama nosso amigo. Com ele aprendi um pouco, mas só fui iniciado quando chegou o Venerável Lama Trinazadin que acaba de nos deixar.

- É verdade mesmo que ele tem quatrocentos anos? - indaguei incrédula.

- Talvez... minha jovem senhora ... há séculos que o Lama Trinazadin ilumina, com a sua presença, as regiões do Himalaia... Consta que ele é emanação divina do Mestre Djwal Khul que faz parte da Fraternidade Branca do Oriente. Seu corpo tem sempre a mesma aparência de serena maturidade. Quando caminha não projeta nenhuma sombra e seus pés não deixam marcas sobre a terra. Sabe-se que há milênios ele assumiu um compromisso, relacionado com o progresso evolucionário da humanidade. Aqui ele exerce sua influência em silêncio e de maneira desconhecida para o resto do mundo...

Fico perplexa ante estas assombrosas afirmações. Tenho a mente aberta, sem nenhuma intenção crítica e não ofereço mais nenhuma resistência às palavras de Kazi.

Nosso amigo Kazi levou-nos para conhecer o resto do mosteiro.

Andamos por uma ala cheia de celas ou "gompas" silenciosas. Passamos por diversos altares cheios de divindades, andamos por espaços cobertos e descobertos. Tudo aquilo me parecia muito familiar. Fiquei muito intrigada. Afinal, eu nunca tinha estado ali antes. Porque esta impressão tão estranha?

Chegamos a um pátio cheio de claustros.

- Aqui ficam os aposentos dos hóspedes - disse Kazi.

Escolham os que quiserem.

Assim o fizemos. Fazia muito frio e a cela que escolhi era úmida e simples. Um noviço trouxe água quente para nosso banho. Tirei as pesadas botas de couro forradas de pele de carneiro, e a pesada roupa de montaria. Após me lavar numa bacia, vesti roupa quente e limpa. Mais tarde apareceu Kazi e nos levou a um salão onde a refeição estava servida. Era uma sopa de cereais com creme de leite fresco, pão de centeio e chá com bastante manteiga. Nunca nenhuma comida nos pareceu tão deliciosa...

Os lamas não comem nada à noite. Limitam-se a apenas uma refeição por dia. Após o jantar, fomos repousar. Dormimos a noite toda. Na manhã seguinte, bem cedo ainda já estávamos de pé, tranquilos e bem dispostos.

Ficamos quatro semanas no Templo da Sagrada Luz de Buda e lá aprendemos muitas coisas. Tal como em Kargyompa o dia para eles começava muito cedo. A música religiosa que escutávamos pela manhã, à tardinha e ao crepúsculo, era melodiosa e convidava à meditação. Todos os dias o ritual era o mesmo. No grande altar principal eles acendiam velas, sempre em número ímpar. Colocavam taças de cristal com água e riscavam no chão o círculo mágico ou "kyilkhos". Consta que é através destes círculos que são dadas as ordens para uma série infindável de espíritos e elas são obedecidas sem vacilação. O desenho ou "ponto" serve como identificação da Entidade chefe manifestada. Eram usados pós nas sete cores fluídicas exotéricas das sete legiões angélicas. Em seguida a defumação de todos com o incenso abençoado pelo Grande Lama. O altar era formado por duas partes. A parte superior, ou oratório tinha a imagem do Buda Maitreya, flores, rosários coloridos, as taças de água e velas também coloridas. A parte inferior do altar é secreta, ficando sempre fechada por uma cortina de seda amarela. Dizem que contém elementos naturais como favas, sementes, metais, contas e raízes sagradas. Todos os dias eram oferecidos banhos com ervas socadas numa tigela de madeira. Eles deviam ser tomados do pescoço para baixo e a pessoa ficar com os pés apoiados sobre a terra ou sobre carvão mineral. Eles servem para a limpeza do campo magnético, assim também como o incenso. Indagamos porque eles usavam velas só no número ímpar. E a resposta foi:

- Porque os números ímpares são positivos, "Yang" solares e masculinos. Os números pares são negativos, "Yin", lunares e femininos. As velas e as taças com água representam os dois elementos: água e fogo, considerados elementos essenciais da Natureza.

Durante o ritual os lamas cantavam hinos mágicos chamados "Mantras" ou palavras de poder. São sons místicos que põem em movimento certos planos da Natureza, produzindo assim maior afinidade vibratória entre os planos da matéria e do espírito.

Além destes ritos diários, tivemos oportunidade de assistir certas experiências alquimistas muito interessantes.

O inverno chegara. E tal como estava previsto, toda a paisagem se cobriu de neve, bloqueando os vales que conduziam à montanha. O Lama de Latchen encerrou-se em retiro. Aproveitamos para aprender alguma coisa com seus discípulos.

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