O Caminho Real

Caminho de Peregrinação de Ouro Preto a Diamantina
"A vida ou é uma audaciosa aventura, ou é nada." (Helen Keller)

Uma rota de magia, mistérios e de exuberante beleza natural no desenrolar do processo histórico de desbravamento e construção da cultura de parte da nossa história.


Segundo Dia - De Santa Bárbara a Conceição do Mato Dentro

7:30 h
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Basta um galo cantar e ele é acompanhado por vários outros. Nada mais bucólico do que acordar com a cantilena dos galos. Dizem que o seu cantar muito cedo na madrugada ainda é resultado do seu gene ancestral europeu com o fuso horário defasado. Coisas da ciência.

Lauto café da manhã, complementando o sabor do jantar à noite, é vorazmente saboreado no meio de comentários e projeções do novo dia que já avança célere.

8:00 h
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Deixa-se Santa Bárbara às 8:00 horas, despedindo-se da Praça da Matriz, com a sensação que, há mais de trezentos anos, vários outros aventureiros também se despediam daquelas montanhas, cujas silhuetas emolduram majestosamente a paisagem. Quantas histórias, sonhos, desejos! Alguns realizados, outros amargurados. Coisas da vida.

8:40 h
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Roda-se por asfalto até Bom Jesus do Amparo, depois de avistar Barão de Cocais. Bom Jesus do Amparo é uma pequena, mas bonita cidade de cerca de 5.000 habitantes. O seu nome provém da imagem do Senhor Bom Jesus vinda de Amparo em Portugal. É terra natal do Cardeal Motta – Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta – 1º Cardeal da Arquidiocese de São Paulo, criado pelo consistório de 24.12.1945 do Papa Pio XII. É marcante a religiosidade do local.

9:00 h
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Daqui pra frente, até Diamantina, a estrada é de terra, com exuberante natureza, maravilhosos mirantes onde, embora estejam longe do sertão aberto de Guimarães Rosa, há locais que se descortinam longínquos horizontes a imantar a imaginação em busca de aventuras e desejos.

Horizonte longínquo!
Que saudade!
Busco, rebusco, não encontro.
Cansado, triste retorno.
Horizonte longínquo!

Que saudade! Essa reminiscência indefinida de caminhos não trilhados remete o caminhante anônimo à trilha do “Caminho Real” e o coloca defronte de suas próprias indecisões. Por onde começar?

Chega-se em Ipoema às 9:30 horas. Já são 215 quilômetros percorridos. Visita-se o Museu do tropeiro e depois, ruma-se para a Fazenda Cachoeira Alta, ponto de descanso e almoço, com previsão de chegada às 10:30 horas. É uma típica fazenda da região, bem cuidada e de horizonte aberto. O Sr. Onelvino, o proprietário, magro e alto, sorridente e meigo, explica, fala, agradece, mostra fotos e jornais. Não cabe em si. Parece que vai explodir de alegria.

Antes do almoço faz-se uma visita ao engenho de cachaça, onde se pode provar e comprar a "boa pinga", feita ali mesmo. Visita-se também o moinho de fubá. Quanta maravilha desconhecida e até oculta. Quanta simplicidade!

A beleza da Cachoeira Alta convida para uma maior aproximação, o sereno provocado por ela molha o ambiente. O momento é inebriante e de reflexão, mas, a lembrança do almoço fala mais alto.

A comida é farta e saborosa. Os pratos são típicos e regionais com variadas opções, tudo servido na cozinha da fazenda, na companhia do Sr. Onelvino com sua prosa sábia e agradável e de sua esposa, D.Maria.

13:00 h
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São 13:00 . É hora de partida, rumo a Senhora do Carmo. Não muito longe da fazenda, a subida é íngreme e de curvas fechadas até o topo. Ponto de parada e mirante com vista de longo alcance. Do alto pode-se ver a faina dos trabalhadores ao longe. O som ou barulho é defasado da imagem do objeto que o produz. A visão do gado e outros animais de trabalho e a região de tropeiros fazem aflorar a história da Mula de Tales:

Conta-se que Tales, o de Mileto, filósofo e fundador da Escola Jônica, também era comerciante de sal. Possuía uma tropa para o transporte da mercadoria, e uma das mulas, talvez a mais serelepe, sob o peso da carga de sal, ao passar pelo rio, entrava n’água mais profunda e saía do outro lado quase sem peso, já que o sal se dissolvia na água. Era a rotina: sal no lombo, mula na água e prejuízo certo. Tales arquitetou uma lição para a mula. No próximo dia, em vez de sal, ele carregou a mula com uma pesada carga de lã, bem arrochada. A mula, como de costume, correu para o rio. A lã encharcou e o peso triplicou. A muito custo e quase se afogando, a mula, assustada, conseguiu sair do outro lado. Conta-se que ela dava longas voltas para não mais passar por ali.

13:20 h
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Deixa-se o mirante com a sensação que algo novo acontece. O relâmpago quando ocorre nas nuvens mais altas, além de riscar o céu noturno, enche a noite com uma luz difusa e abrangente. Na mente do caminhante anônimo essa luz ilumina-se e ele, atento, percebe a cena:

Então, “Diante do trono de Deus, a Alma - e as demais almas - se apresentaram e exclamaram: Senhor de minha Vida! Concedei-me a fortaleza para trilhar o Caminho da Revelação, cruzar o mar da negra ilusão e enfrentar o caminho iluminado da terra. Deus respondeu: Vades, e vades muito longe”.

Mas, “Diante do portal que se abre sobre o “Caminho Iluminado”, a alma permaneceu só e disse: Senhor de minha Vida! O Caminho da Revelação é o caminho da vida manifestada; o caminho da negra ilusão conduz à glória do sol nascente; o caminho iluminado da terra conduz à Luz que dispersa toda sombra. Procuro trilhar o “Caminho Iluminado” que conduz de volta à TUA PRESENÇA. Entretanto, esse Caminho é obscuro. Que devo fazer? Deus respondeu: Aproxima-te e penetra na tua própria luz e nessa luz verás a luz”.

Assim então, “Diante do portal de cada novo dia que contém em si as horas ordenadas de responsabilidade, eu permaneço. Exclamo em voz alta: Senhor de minha Vida! Como posso cumprir com o dever deste dia, procurando sempre conseguir o desapego, satisfazer todas as necessidades e também livrar-me das amarras e dos compromissos? Deus respondeu: O sol se aproxima e vivifica a terra e nada se pode levar da terra. Vive como ele. Dá e não peças nada”.

Num balançar do veículo a luz se dissipa. O caminhante torna-se pensativo.

14:00 h
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São 14:00 horas. Senhora do Carmo aparece de repente, um pequeno e tranquilo vilarejo, distrito de Itabira, assim como Ipoema. É ponto de parada para descanso e café. A residência pousada da D. Maria Isabel é de fachada simples, mas de grandeza interior. Ela, sempre sorridente e meiga, loquaz e educada, se prontifica para servir um saboroso lanche, entremeado, de sucos, queijos, brevidades e uma deliciosa “virgínia”. Se não fosse o relógio, a impor a hora de partida...

14:30 h
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Ruma-se em direção a Itambé do Mato Dentro. É hora de galgar um dos contrafortes da Serra do Espinhaço. A paisagem muda rapidamente e vê-se envolvida por grandes e silenciosos rochedos. Entretanto a envolvente magia faz que se ouça o diálogo entre esses “silenciosos” blocos de pedra. “Veja”, fala um deles para um outro, “estamos aqui já há algum tempo. Essas pessoas que estão passando não são as mesmas que passaram aqui há pouco, com mulas e cavalos, carregando riquezas?”. “Não se esqueça”, respondeu o outro, “que a nossa percepção do tempo não é a mesma delas. Veja que as mulas que elas estão utilizando são mais rápidas e barulhentas. Isto é sinal que alguma coisa mudou. Também nós mudamos, perdemos algumas crostas, as lagartixas que andam sobre nós não são as mesmas, e assim por diante”. “É”, admitiu o outro.

Assim como o Itacolomi, que tem presenciado tantos acontecimentos, esses blocos também são testemunhas de diálogos e outros acontecimentos. Quanta sabedoria acumulada!

A paisagem cada vez muda mais. Novos horizontes. Novo céu.

Chega-se a Itambé do Mato Dentro às 15:00 horas. Não há parada programada, ficando a critério do grupo parar ou não. Ruma-se em direção a Morro do Pilar. Antes do Morro Redondo uma bica oferece uma reconfortante água cristalina e fria. Alcança-se o alto do contraforte e chega-se ao Mirante da Fernanda. Ponto de descanso e fotografias. O horizonte convida a reflexões.

O caminhante anônimo, na sua busca, recebe as Regras do Caminho:

“I – O Caminho é trilhado em plena luz do dia, direcionada sobre a Senda por Aqueles Que sabem e lideram. Nada pode ser escondido, e a cada volta, o viajante deve confrontar-se consigo mesmo.

II – No Caminho o escondido é revelado. Cada um vê e sabe a vileza de cada outro. E no entanto, com essa grande revelação, não há retorno, não há rejeição de uns aos outros, e não há debilidade no Caminho. O Caminho avança dia adentro.

III – Ninguém vagueia perdido no Caminho. Não há afobação nem pressa. E no entanto, não há tempo a perder. Cada Peregrino, sabendo disso, apressa os passos e se encontra rodeado por seus companheiros. Alguns se adiantam; ele os segue. Alguns se atrasam; ele determina o ritmo. Ele não viaja sozinho.

IV – Três coisas o Peregrino deve evitar. Usar um capuz, a máscara que encobre seu rosto dos outros; levar um pote com água somente para suas próprias necessidades; carregar nos ombros um cajado sem um gancho para segurar.

V – Cada Peregrino na Senda deve carregar consigo aquilo que ele precisa: um braseiro, para aquecer seus companheiros; uma lanterna, para iluminar seu coração e mostrar aos seus companheiros a natureza de sua vida oculta; uma bolsa com ouro, que ele não esbanja no Caminho, mas divide com os outros; um vaso lacrado, onde ele leva todas as suas aspirações para depositar nos pés Daquele Que aguarda para recebê-lo no portão – um vaso lacrado.

VI – O Peregrino, na medida em que percorre o Caminho, deve ter o ouvido aberto, a mão generosa, a língua silenciosa, o coração purificado, a voz suave, o passo rápido, e o olho aberto para ver a luz. Ele sabe que não viaja sozinho.”

Contemplando o horizonte aberto que se perde de vista, o caminhante, que também se perde em seus pensamentos, é admoestado.

Entretanto, “não procure, Oh duas vezes abençoado, alcançar a essência espiritual antes que a mente a absorva. Não é assim que se procura a sabedoria. Somente àquele que tem a mente sob controle e vê o mundo como num espelho pode ser confiado com segurança o sentido interno...

O caminho trilhado pelo Servidor é o caminho do fogo que passa através do coração e conduz à cabeça. Não é no caminho do prazer, nem no caminho da dor, que se consegue a libertação, nem se pode chegar à sabedoria. É pela transcendência dos dois, pela fusão da dor com o prazer que se alcança a meta, a qual se encontra mais adiante como um ponto de luz percebido na escuridão da noite invernal. Esse ponto de luz pode trazer à mente a recordação de um pequeno candeeiro aceso num sótão escuro, mas - na medida em que se percorre esse caminho que conduz à luz, através da fusão dos pares de opostos - esse frio e vacilante pontinho de luz cresce com firme brilho até que a luz quente de alguma lâmpada brilhante seja sentida na mente do peregrino no caminho.

Segue em frente, Oh Peregrino, com firme perseverança. Não há no caminho nem candeeiro, nem lâmpada terrena alimentada com óleo. O brilho se expande até que o caminho termine num esplendor de glória e o peregrino da noite se torna o filho do sol, atravessando os portais dessa radiante esfera.”

16:00 h
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A contragosto, deixa-se o mirante e inicia-se uma longa descida por estrada sinuosa e de má conservação até atravessar o Rio do Peixe e mais adiante, o Rio Preto.

Chega-se em Morro do Pilar às 16:40 horas para um breve descanso na Pousada Monsenhor Matos. É servido um gostoso lanche regado com café, leite, e suco, acompanhados de brevidades e um delicioso bolo de fubá. Maria de Fátima garante que o bolo é feito por ela, sob o olhar de suspeição de sua mãe, Dona Maria Constância, proprietária da pousada.

O tempo avança rapidamente e é preciso chegar em Conceição do Mato Dentro quanto mais cedo possível.

18:00 h
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Chega-se à bela Pousada Vale das Pedras, perto de Conceição do Mato Dentro, às 18:00 horas para uma merecida pernoite, depois de 320 quilômetros percorridos desde o início do passeio. Os chalés da pousada são confortáveis, o pomar repleto de frutas da época. Por volta das 20:00 horas é servido o jantar: três tipos de caldos acompanhados de torradas.

Galeria de fotos

Bom Jesus do Amparo
Ipoema: Museu do Tropeiro
Museu do Tropeiro: Relíquias e história
Museu do Tropeiro: Coleções
Museu do Tropeiro: Fabricação de queijo
Museu do Tropeiro: Tralhas
Fazenda Cachoeira Alta
Sr. Onelvino (de chapéu), hospitalidade
Moinho de fubá: Tradição preservada
Cachoeira Alta: Capricho da natureza
Cachoeira Alta: Refreso antes do almoço
De novo na estrada...
Mirante: Parada para observação
Mirante: Ao fundo a Cachoeria Alta
Mirante: 360º de horizonte
Mirante: Um convite a reflexão
Hora de seguir viagem
Fazendas seculares
Senhora do Carmo: Lugarejo tranquilo
Senhora do Carmo: Pousada Neves
Senhora do Carmo: Dona Maria Isabel
Senhora do Carmo: Saboroso lanche
Itambé do Mato Dentro
De novo no caminho
Mirante da Fernanda
Mirante da Fernanda: horizonte magnífico
Mirante da Fernanda
Morro do Pilar: Ruínas da "Real Fábrica de Ferro"
Morro do Pilar: Igreja Matriz
Morro do Pilar: Pousada D. Maria Constância
Morro do Pilar
Rumo à Conceição do Mato Dentro
Rio Santo Antônio
Pousada Vale das Pedras: Descanso
A paisagem singular justifica o nome
Conforto e muito verde
Vista interna do conjunto
Vista interna do conjunto

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